Gente feliz com livros

Na segunda noite da Tábuas de Leitura 2018, o tema era “Ser feliz a ler”. Chovia e “havia bola”, mas a biblioteca encheu-se de gente.

Na noite de quinta-feira, a Biblioteca João Brandão levou a comunidade a escutar Alberto Pimenta, Álvaro Magalhães, Luísa Ducla Soares, Mia Couto, Raquel Patriarca, entre outros autores de língua portuguesa. Era a rubrica “um minuto de leitura”, que, ao multiplicar-se por todos os que quiseram ler em voz alta para a audiência, resultou em perto de duas horas. Ninguém respeitou o “minuto”. Ninguém se importou.


Crianças e pais, frequentadores da biblioteca, mediadores de leitura e até um vereador escolheram textos para partilhar com uma plateia diversificada, atenta e participativa.

Fazer perdurar o prazer

Mas felicidade não significa facilidade, alertou Manuela Pargana, coordenadora da Rede de Bibliotecas Escolares:
“Ser feliz não é uma ideia que se adeqúe absolutamente à ideia da leitura, porque ler é um esforço. É complexo.”
Recordou depois como foi feliz quando conseguiu descodificar o código da escrita. “Aquilo que eram uns gatafunhos numa folha de papel passou a ser legível.” Como se passa com todos nós, não é nesse momento inicial que se alcança “a verdadeira compreensão nem interpretação”, mas é “o ponto de partida”.

A grande descoberta desta professora foi a de poder “conhecer universos e realidades diferentes através das palavras e das experiências de outros”.
Manuela Pargana falou ainda no fascínio por alguns livros, que nos fazem ler devagar. “Vamos travando, porque nos está a dar um gozo imenso e queremos fazer perdurar essa felicidade.”


Luís Santos, subdirector da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, realçou o papel e influência da Biblioteca João Brandão na construção da comunidade. E defendeu que uma biblioteca municipal é “muito mais do que quatro paredes num edifício, é uma casa aberta, uma casa de sonhos”.

Lembrou ainda que é “um local onde não se paga o acesso à informação e onde se “promove a cidadania”. Para concluir que é “um serviço verdadeiramente democrático”. Sempre se sentiu “feliz no meio dos livros e dos utilizadores das bibliotecas”.

Tudo começou lá atrás, na infância, quando ajudava o pai a distribuir obras do Círculo de Leitores, editora de que era assistente. “O primeiro livro que li foi a Enciclopédia Universal. De A a Z”, recordou divertido.

Uma rocha a abanar sobre o Mondego

A Tábua de Leituras encerrou na noite de sexta-feira com um momento musical, pelo grupo Crescer na Biblioteca, e uma sessão de contos e leituras, com Dolores Tavares, Cristina Taquelim, Maurício Leite e José Mauro Brant.

O dia tinha começado com um passeio até Póvoa de Midões, para dar a conhecer o Penedo Oscilante (na versão popular… Penedo C’Abana). E abana mesmo.

Num belo cenário natural sobre os meandros do Mondego (que vai cheio), houve tempo para uma das filhas da designer homenageada nesta edição, Rê Fernandes, ensinar os visitantes a respirar. E ainda se escutou um conto de Marina Colassanti pela voz de Ana Paula Neves, responsável pela Tábuas de Leitura.

Numa breve paragem junto à casa que foi de João Brandão, podia ler-se a inscrição: “A liberdade é o maior e melhor bem do homem.” As bibliotecas sabem isso.

Fonte: Jornal "Público" - 9 de Junho de 2018
https://www.publico.pt/2018/06/09/local/noticia/gente-feliz-com-livros-1833788