Em Tábua, chegado o mês de Junho, a leitura vai para a rua. O concelho reúne-se à volta dos livros e da Biblioteca João Brandão. As manhãs são para as crianças, as tardes para os formadores e as noites para quem quiser escutar (e contar) histórias. Esperam-se serões animados a partir de terça-feira.
Livros a entrar pelo interior de Portugal? Só graças às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Foi assim durante muito tempo. "A primeira vez que entrei numa biblioteca foi com 18 anos, quando fui para a universidade", recorda Ana Paula Neves, de 50 anos. E nunca mais quis sair. Há uma década que dirige a Biblioteca Municipal de Tábua e é a principal dinamizadora da festa anual Tábua de Leituras, que começa dia 7 de Junho. "Como muita gente aqui deste interior, conheci o livro em criança através da biblioteca itinerante da Gulbenkian. E mesmo até há dez anos nós não tínhamos nada..."
Agora já têm. Os miúdos podem crescer com livros e computadores, "entre paredes de granito, mas com mobiliário moderno, numa casa muito bonita, onde há uma simbiose fantástica entre o antigo e o moderno", diz, orgulhosa, a bibliotecária. E desculpa-se pela vaidade. (Está desculpada.)
A festa anual leva a biblioteca ainda para mais perto das pessoas do concelho. E atrai visitantes de outras regiões.Durante três dias, a equipa da João Brandão (20 elementos sob a coordenação de Maurício Leite) e mais alguns convidados desdobram-se entre sessões contínuas de leitura, piqueniques literários com jardins-de-infância, oficinas de promoção da leitura, sessões de formação de mediadores, feira do livro usado, corredor de jogos tradicionais e, claro, os muito participados serões de contos.
A noite de 9 de Junho é um dos momentos a não perder, segundo Ana Paula Neves, também vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Tábua. Sob o título À Conversa com..., serão convidados este ano o autor António Torrado ("maravilhoso escritor e também nosso amigo"), a bibliotecária, narradora e mediadora de leitura Cristina Taquelim (da Biblioteca de Beja e que organiza o encontro Palavras Andarilhas) e a directora de serviços do livro da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB), Maria Carlos Loureiro. "É muito importante o trabalho da DGLB junto das bibliotecas, e a presença de Maria Carlos Loureiro é uma grande alegria para nós", diz a directora da biblioteca de Tábua.
O espírito de "sair de portas" começou em 2007. "Quisemos ir para a rua, à procura daqueles que ainda não nos tinham encontrado, crianças ou adultos. Fomos para o jardim e para as piscinas." Mas também para os centros de saúde, envolvendo técnicos, família e todos quantos valorizam "a vida e a memória". Porque acreditam ser "possível criar comunidades de leitores onde se faz um trabalho continuado que envolva biblioteca, escola, livros, alunos, pais, professores e técnicos".
O encontro nasceu assim da necessidade de criar um novo conceito de leitura. "Uma leitura actual tanto do mundo moderno quanto do antigo, do tradicional e da vanguarda, das histórias populares e das histórias de cada um. Através das mais variadas linguagens e registos de leituras, de modo a preservar e valorizar a nossa cultura", prossegue a técnica.
Na primeira noite, haverá duas apresentações de livros editados recentemente, um para crianças e outro não: A Casa na Lua, com texto de Cristina Taquelim e ilustrações de Elsa Lé (Paulinas Editora), e Os Mapas do Silêncio, de Maria da Conceição Ruivo (Edições Afrontamento). Na segunda noite, 8 de Junho, será a final do concurso de leitura organizado pela Rede de Bibliotecas de Tábua, "com uma adesão que superou tudo o que estávamos à espera".
Pretende-se nesta reflexão "ir para além das letras, interpretar, reflectir e desenvolver uma atitude crítica diante das imagens propostas", explica o colaborador da biblioteca que orientará a sessão.
Para que a festa corra tão bem como nos anos anteriores, "há um trabalho continuado de uma equipa muito dedicada e competente", sublinha a vereadora da Cultura, Educação e Acção Social, e invoca o que se pode ler no desdobrável de divulgação desta edição: "Durante todo o ano semeámos. Trabalhámos na qualificação da equipa técnica da biblioteca, criámos a Casa da Árvore, um espaço para leitura dentro da biblioteca, e trabalhámos nas escolas, com as crianças e jovens do concelho, revelando os muitos livros de António Torrado, um dos mais expressivos autores de literatura para a infância e nosso convidado especial nesta IV Tábua de Leituras." No átrio, estará uma exposição bibliográfica do autor: António Torrado - Todos os Livros. Toda a Obra.
E porque a festa é para se fazer (também) fora de portas, pretende-se que "adultos, crianças e jovens possam ler no Jardim Sarah Beirão à sombra de uma árvore, ler os sabores guardados numa oficina de chocolate, ler as formas, as cores e descobrir-lhes os segredos, ler as palavras guardadas nos contos ou na poesia, escritos ou contados por escritores e contadores. Podem até trocar-se leituras numa feira de Traços e Baldrocas, onde livros, CD e revistas vão de mão em mão, chegando a novas casas e possibilitando novas leituras".
Fonte: Jornal Público (5 de Junho de 2011) https://www.publico.pt/2011/06/05/jornal/a-biblioteca-sai-de-casa-22182262
![]() |
| Mariana Soares |
Agora já têm. Os miúdos podem crescer com livros e computadores, "entre paredes de granito, mas com mobiliário moderno, numa casa muito bonita, onde há uma simbiose fantástica entre o antigo e o moderno", diz, orgulhosa, a bibliotecária. E desculpa-se pela vaidade. (Está desculpada.)
Casa cheia no Natal
"Quando se abriu a biblioteca, foi preciso fazer um trabalho de sapa... Por exemplo, à sexta-feira, estarmos abertos até às 23h. E toda a tarde de sábado. Em alguns dias, nas férias escolares sobretudo, a biblioteca fica cheiinha. No Natal, então! Trazem os computadores e, com o wireless, estão onde querem, pesquisam o que querem, andam por onde querem. Têm silêncio, espaço, luz. Sentem-se bem", conta à Pública.A festa anual leva a biblioteca ainda para mais perto das pessoas do concelho. E atrai visitantes de outras regiões.Durante três dias, a equipa da João Brandão (20 elementos sob a coordenação de Maurício Leite) e mais alguns convidados desdobram-se entre sessões contínuas de leitura, piqueniques literários com jardins-de-infância, oficinas de promoção da leitura, sessões de formação de mediadores, feira do livro usado, corredor de jogos tradicionais e, claro, os muito participados serões de contos.
A noite de 9 de Junho é um dos momentos a não perder, segundo Ana Paula Neves, também vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Tábua. Sob o título À Conversa com..., serão convidados este ano o autor António Torrado ("maravilhoso escritor e também nosso amigo"), a bibliotecária, narradora e mediadora de leitura Cristina Taquelim (da Biblioteca de Beja e que organiza o encontro Palavras Andarilhas) e a directora de serviços do livro da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB), Maria Carlos Loureiro. "É muito importante o trabalho da DGLB junto das bibliotecas, e a presença de Maria Carlos Loureiro é uma grande alegria para nós", diz a directora da biblioteca de Tábua.
O espírito de "sair de portas" começou em 2007. "Quisemos ir para a rua, à procura daqueles que ainda não nos tinham encontrado, crianças ou adultos. Fomos para o jardim e para as piscinas." Mas também para os centros de saúde, envolvendo técnicos, família e todos quantos valorizam "a vida e a memória". Porque acreditam ser "possível criar comunidades de leitores onde se faz um trabalho continuado que envolva biblioteca, escola, livros, alunos, pais, professores e técnicos".
Três horas até Coimbra
A primeira Tábua de Leituras foi em 2008. "Aquilo que queríamos enquanto equipa era que a comunidade percebesse que não valia a pena estarem aqui pessoas a trabalhar se ninguém cá viesse. Num meio como o nosso, isto tem um peso muito grande. Era aqui [na biblioteca] que acontecia tudo. Aliás, ainda é aqui que tudo acontece." Embora as acessibilidades permitam que "já não se demore três horas até Coimbra". Estão agora a meia hora de Coimbra e de Viseu.O encontro nasceu assim da necessidade de criar um novo conceito de leitura. "Uma leitura actual tanto do mundo moderno quanto do antigo, do tradicional e da vanguarda, das histórias populares e das histórias de cada um. Através das mais variadas linguagens e registos de leituras, de modo a preservar e valorizar a nossa cultura", prossegue a técnica.
Envolver a comunidade
Nessa primeira edição, criaram também a Tábua de Percursos, "que percorreu o concelho, dando a conhecer a cultura e história local". E logo aí se definiu o propósito essencial da biblioteca, e que se mantém: "Voltar-se para a comunidade e envolvê-la nos mais variados sectores, não só da leitura dos livros mas também dos lugares, das fotografias, enfim, de tudo aquilo que é passível de ser lido. Contamos com a participação das escolas, corpo de bombeiros com tendas ecológicas e exposições de miniaturas de carros, aviões e motas, contadores de histórias, formadores, amigos da biblioteca", resume Ana Paula Neves.Na primeira noite, haverá duas apresentações de livros editados recentemente, um para crianças e outro não: A Casa na Lua, com texto de Cristina Taquelim e ilustrações de Elsa Lé (Paulinas Editora), e Os Mapas do Silêncio, de Maria da Conceição Ruivo (Edições Afrontamento). Na segunda noite, 8 de Junho, será a final do concurso de leitura organizado pela Rede de Bibliotecas de Tábua, "com uma adesão que superou tudo o que estávamos à espera".
Ler as imagens
Grande participação terá certamente a sessão do mediador de leitura brasileiro Maurício Leite. Título: Olhos de ver. Olhos de ler. Programa: "A leitura de imagem. A imagem como processo narrativo. Livros para a infância e multimédia. Como as ler e interpretar - além das imagens clássicas da história da arte, de estilos como o gótico, o surrealismo, impressionismo, barroco, art nouveau e outros tantos, temos também as influências modernas, como a TV, o cinema, os desenhos animados, o computador. Como se cruzam estas linguagens no livro para a infância e juventude?"Pretende-se nesta reflexão "ir para além das letras, interpretar, reflectir e desenvolver uma atitude crítica diante das imagens propostas", explica o colaborador da biblioteca que orientará a sessão.
Para que a festa corra tão bem como nos anos anteriores, "há um trabalho continuado de uma equipa muito dedicada e competente", sublinha a vereadora da Cultura, Educação e Acção Social, e invoca o que se pode ler no desdobrável de divulgação desta edição: "Durante todo o ano semeámos. Trabalhámos na qualificação da equipa técnica da biblioteca, criámos a Casa da Árvore, um espaço para leitura dentro da biblioteca, e trabalhámos nas escolas, com as crianças e jovens do concelho, revelando os muitos livros de António Torrado, um dos mais expressivos autores de literatura para a infância e nosso convidado especial nesta IV Tábua de Leituras." No átrio, estará uma exposição bibliográfica do autor: António Torrado - Todos os Livros. Toda a Obra.
Caminhos de memória
A responsável pela João Brandão não tem dúvidas de que a biblioteca "é, por excelência, o pólo difusor de cultura do concelho". E congratula-se com a adesão da comunidade, "o que permite ter um público bastante diversificado, desde os bebés que vêm com os pais ao domingo de manhã, passando pelas oficinas de leitura na biblioteca, escolas e jardins de infância acompanhados todos os dias pelos técnicos da biblioteca, até aos mais velhos, que visitam periodicamente a biblioteca para actividades orientadas".E porque a festa é para se fazer (também) fora de portas, pretende-se que "adultos, crianças e jovens possam ler no Jardim Sarah Beirão à sombra de uma árvore, ler os sabores guardados numa oficina de chocolate, ler as formas, as cores e descobrir-lhes os segredos, ler as palavras guardadas nos contos ou na poesia, escritos ou contados por escritores e contadores. Podem até trocar-se leituras numa feira de Traços e Baldrocas, onde livros, CD e revistas vão de mão em mão, chegando a novas casas e possibilitando novas leituras".
E como convenceria Ana Paula Tavares os leitores da Pública a participar na IV Tábua de Leituras? "Diria aos leitores que - pela voz da comunidade tabuense e porque o nosso trabalho só ganha sentido com a participação de todos - os convidamos a ler, ouvir e chorar por mais... Convidamo-los a vir celebrar connosco a vida e a iniciar aqui um novo caminho feito de leitura e de memória." E tragam os miúdos.
Fonte: Jornal Público (5 de Junho de 2011) https://www.publico.pt/2011/06/05/jornal/a-biblioteca-sai-de-casa-22182262
